Com efeito suponhamos uma sociedade de homens bastante desinteressados, bons e benevolentes para viverem, entre si, fraternalmente, não haveria entre eles nem privilégios, nem direitos excepcionais, sem o que não haveria ali fraternidade. Tratar alguém como irmão, é tratá-lo de igual para igual; é querer-lhe o que desejaria para si mesmo; num povo de irmãos, a igualdade será a conseqüência de seus sentimentos, de sua maneira de agir, e se estabelecerá pela forças das coisas. Mas qual é o inimigo da igualdade? É o orgulho. O orgulho que, por toda parte, quer primar e dominar, que vive de privilégios e de excessões, pode suportar a igualdade social, mas não a fundará jamais e a destruirá na primeira ocasião. Ora, sendo o orgulho, ele também uma das pragas da sociedade, enquanto não for destruído, oporá uma barreira ã verdadeira igualdade.
A liberdade é a filha da fraternidade e da igualdade. Vivendo os homens como imãos, com os direitos iguais, animados de um sentimento de benevolência recíproco, praticarão entre si a justiça, não procurarão nunca se fazerem mal, e não terão, conseqüentemente, nada a temer uns dos outros. A liberdade será sem perigo, porque ninguém pensará em dela abusar em prejuízo de seus semelhantes. Mas como o egoísmo que quer tudo para si, o orgulho que quer sempre dominar, dariam a mão à liberdade que os destronaria? Os inimigos da liberdade são, pois ao mesmo tempo, o egoísmo e o orgulho, como o são da fraternidade e da igualdade.
A liberdade supõe a confiança mútua; ora, não poderia haver confiança entre pessoas movidas pelo sentimento exclusivo da personalidade; não podendo se satisfazer senão às expensas de outrem, sem cessar, estão em guarda uns contra os outros. Sempre com medo de perder o que chamam seus direitos, a dominação é a condição mesma de sua existência, por isso, armarão sempre ciladas à liberdade, e a abafarão tanto tempo quanto puderem.
Todos vós que sonhais com essa idade de ouro para a Humanidade, trabalhai, antes de tudo, na base do edifício, antes de querer coroar-lhe a cumeeira; dai-lhe por base a fraternidade, mas para isso não basta decretá-la e inscrevê-la sobre sua bandeira; é preciso que ela esteja no coração dos homens e não se muda o coração dos homens com decretos. Trabalhai sem descanso para extirpar o vírus do orgulho e do egoísmo, de todos os organismos da sociedade, porque aí está a fonte de todo mal, o obstáculo real ao reino do bem. Só então os homens compreenderão os deveres e os benefícios da fraternidade."
livro Obras Póstumas
autor Allan Kardec
Editora IDE, 2006.
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