sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A cultura como forma de desenvolvimento social

O fortalecimento e a mobilização das culturas tradicionais podem exercer um papel importante nas políticas e projetos que visem a superação do estado de pobreza e a integração de populações marginalizadas e excluídas. Mesmo desprovidas e espoliadas de bens materiais, a cultura e as tradições com seus conhecimentos acumulados e aplicados em projetos de integração social podem ter um papel fundamental. O resgate de padrões tradicionais na preparação de alimentos, elaboração de produtos de artesanato, cantos e danças pode funcionar como elemento-chave na reconstrução da identidade coletiva e do capital social. Processos de intervenção social devem visar prioritariamente o resgate da auto-estima dos grupos e populações marginalizadas, a fim de estimular sua criatividade e o espírito de cooperação.

artigo Prioridade: construir o capital social de Henrique Rattner.
São Paulo, Novembro de 2002.


Os grupos pobres não têm riquezas materiais, mas têm uma bagagem cultural de oportunidades que, como acontece com as populações indígenas, pode ser de séculos ou milênios. O respeito profundo por sua cultura criará condições favoráveis para a utilização dos conhecimentos acumulados, das tradições, dos modos como vincularse à natureza e das capacidades naturais de auto-organização, que podem ser de grande utilidade no contexto dos programas sociais.

Por outro lado, a consideração e a valorização da cultura dos setores desfavorecidos são pontos chaves para os cruciais temas da identidade coletiva e da auto-estima. Com freqüência, a marginalidade e a pobreza econômicas são acompanhadas de desvalorização cultural. A cultura dos pobres é estigmatizada por setores da sociedade que as rotulam de inferior, precária, atrasada. Atribuem-se até, “alegremente”, a pautas dessa cultura as próprias razões da pobreza. Os pobres sentem que, além de suas dificuldades materiais, há um processo silencioso de “depreciação cultural” em relação a seus valores, tradições, conhecimentos, formas de relação. Ao desvalorizar-se a cultura, está-se definitivamente enfraquecendo a identidade. Uma identidade abatida gera sentimentos coletivos e individuais de baixa estima.

livro Falácias e Mitos do Desenvolvimento Social de Bernardo Kliksberg.
Cortez Editora, Novembro de 2001.

domingo, 8 de agosto de 2010

O ato de experimentar

Se doi violonistas tocam em um mesmo concerto e um deles transcender a si mesmo, para experimentar, ele se perde dentro da música. Ele não toca a música; a música é que toca e flui através dele, através de sua experiência, de seu sentimento. Seu recital tem aspectos de pura verdade porque a música nasce espontaneamente dele. Ele é perfeito e esta perfeição é projetada nos corações de seus ouvintes. O segundo violinistapossui a mesma técnica do primeiro. Ele toca a mesma música com a mesma técnica do primeiro. Mas ele se mantém isolado dá música, observando e não participando da experiência. Mantém o conceito de que é ele quem está tocando no concerto. Não é capaz de transcender a si mesmo; conseqüentemente, ele não está experimentando. Sua performance pode ser perfeita tecnicamente, mas nõa é viva. Não transmite emoções para a sua audiência.

texto de Richard Hittleman, escritor radicado nos EUA.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Uma miragem na favela de Paraisópolis?

Em artigo do jornal O Estado de São Paulo publicado em 11 de novembro de 2008, no Caderno Economia e Negócios, as Casas Bahias anunciaram a inauguração de mais uma loja, agora, dentro da segunda maior favela de São Paulo, Paraisópolis. De acordo com o artigo, a expectativa das Casas Bahia, é faturar entre R$1 milhão e R$1,5 milhões a partir de janeiro de 2009. Ainda, segundo o artigo, "o potencial de consumo de Paraisópolis equivale a uma cidade de médio porte com a vantagem de não ter grandes concorrentes no local".

Vale ressaltar que as Casas Bahia hoje é a maior rede varejista de móveis e eletrodomésticos atendendo o público de baixa renda e atuando em um mercado ainda pouco explorado pelas grandes companhias. Em pesquisa realizada pelo Instituto Fernand Braudel e publicada no artigo A democratização do consumo, a periferia vive uma nova realidade. "O comércio local fervilha com negócios de todos os tipos, cores e tamanhos nas ruas mais movimentadas. Representam um retrato vivo da expansão do consumo e os pequenos empreendedores contribuem para a geração de renda e a distribuição de bens e serviços na região".

Os empresários precisam acreditar no potencial de consumo da população da periferia e investir criando novas realidades e perspectivas para as suas comunidades. Uma reflexão séria e profunda sobre o retorno das ações realizadas nessas regiões podem despertar um potencial incomensurável não apenas em sua dimensão econômica, mas também social. Grajaú, um distrito localizado na Zona Sul de São Paulo, tem uma população aproximada de 500.000 pessoas. Conta apenas com 2 agências bancárias e não há nenhum centro comercial.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A Fé e a Globalização

Em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo de 21 de dezembro de 2008 no Caderno Internacional está reproduzido palestra proferida por Tony Blair, ex-primeiro Ministro da Grã-Bretanha, na Universidade de Yale onde ele fala sobre "O papel da fé para o êxito da globalização". A seguir trechos do artigo.

"[...] A fé e seus valores são muito importantes. Sua integração definirá de modo crucial as perspectivas de sucesso, de prosperidade e de coexistência pacífica da sociedade global em que vivemos. O que isso signifiga em termos práticos? Antigamente eu acreditava que a globalização era um processo que não contemplava valores. Eu pensava que numa era de globalização era preciso buscar a justiça por seu valor intrínseco, e não por motivos de eficiência. Agora mudei minha posição. A crise econômica mostra o por quê.

Esta crise foi criada em grande parte por um comportamento (pela irresponsabilidade) que preferiríamos não tivesse sido adotado. E prolongou-se pela falta de confiança. Valores como a fé nos outros ou a perspectiva a longo prazo, em lugar da maximização do lucro a curto prazo, são os elementos que criarão a confiança exigida para que a economia volte a se fortalecer. Em outras palavras, a confiança e a estabilidade que dela decorre não poderão ser restauradas apenas por recursos técnicos, mas pelo restabelecimento dos valores. Este é um dos casos que ilustram a idéia de que um mundo interdependente não pode funcionar sem os valores da confiança.

[...] Se pudéssemos criar um espaço em que pessoas de diferentes credos pudessem viver e trabalhar juntas e em paz, seria uma poderosa demonstração de que há valores distintos dos que, durante décadas, criaram um violência sem fim. Para derrotar as forças da exclusão e da divisão que levam ao terror devemos recorrer à educação como um dos principais componentes da política externa.

Portanto, tanto em política econômica quanto em política externa, é evidente que, se não nos pautarmos por valores sólidos, não poderemos tornar o mundo seguro para esta interdependência. A coexistência pacífica não poderá lançar raízes a não ser que existam fortes alianças não apenas entre nações, mas também entre os vários credos e os valores que temos em comum."

Complemento o artigo escrevendo a necessidade imperiosa de compreendermos profundamento os verdadeiros valores de união dos povos e dos indivíduos de cada nação. Ainda mantemos nossas crenças e valores em falsos conceitos imediatistas e inconsequentes.

matéria O papel da fé para o êxito da globalização.
publicação no caderno Internacional de 21 de dezembro de 2008.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Orgulho ou preconceito

Há de se admirar muitos Homens de bem, exemplos da verdadeira luta contra a pobreza e a desigualdade. Destaco aqui, Muhammad Yunus, um grande empreendedor da causa social em Bangladesh. Sua experiência em diversos setores da economia é notável. Agricultura, alimentação, telecomunicações, energia, tecnologia, educação, saúde e financeiro são alguns setores onde ele constituiu instituições voltadas para trabalhar a favor da população humilde.

A sua história é muito semelhante a de tantos outros que desejam dar sua parcela de contribuição à população marginalizada, mas esbarram ora no orgulho, ora no preconceito, outras vezes em falsas políticas de marketing social. No livro Um mundo sem pobreza, Muhammad Yunus conta as dificuldades em obter auxílio mesmo quando ele já havia demonstrado o sucesso e a eficiência dos seus projetos. Muhammad Yunus escreve "[...] eles não demonstravam nenhum interesse. E ainda tinham uma série de razões para explicar por que o sucesso que já desfrutávamos estava fadado a terminar. [...] as pessoas que você está atendendo não devem ser realmente pobres, alguns diziam. Venham comigo visitar a casa deles, eu respondia. [...] então as desculpas mudavam."

A luta de Homens como Muhammad Yunus representa a de tantos outros anônimos, verdadeiros heróis, com capacidade extraordinária em realizar maravilhosas obras sociais ou culturais, muitas vezes, com recursos extremamente limitados. A eles, nosso respeito e reconhecimento pelos préstimos realizados não só à sociedade, mas a nós também.

terça-feira, 2 de março de 2010

A estranha força do altruísmo

"Apesar dos exemplos do cotidiano, todos nós temos uma certa consciência de que devemos vencer o nosso egoísmo e que ele ocupa o pólo oposto no caminho de nossa fecilidade. Os grandes nomes da história da humanidade como Mahatma Gahndi, Albert Einstein Madre Teresa de Calcutá, Martin Luther King e tantos outros, nos fazem refletir se o ato altruísta de dar é muito maior do que o ato egoísta de receber. Parecem conhecer, no ato de altruísmo, a alegria e a felicidade que tanto buscamos. E seus exemplos de vida fortalecem os nossos sentimentos intuitivos desta verdade. Eles nos mostram que a prática altruísta provém de uma sabedoria que parece não estar acessível ao egoísta, fazendo com que o caminho inverso que eles elegeram para suas vidas se torne natural. Eles puderam reconhcer que existe uma relação íntima entre o desenvolvimento dos princípios éticos e a sabedoria. Pelos seus ensinamentos, podemos hoje reconhecer o sábio por meio do altruísmo e da bondade.

Como não temos ainda plena consciência desses conhecimentos, normalmente associamos o altruísmo à pobreza e ao sofrimento. São Francisco de Assis que, de forma altruísta, desfez-se de tudo o que tinha e passou a viver na pobreza, levam-nos, muitas vezes, a acreditar que ele renunciou a uma vida feliz pelo masoquismo do sofrimento. No entanto, é muito mais razoável acreditar que ele, depois de ter reconhecido a existência de uma realidade maior, renunciou àquilo que se tornou superficial, trocando o sofrimento do "ter" pela alegria do "ser". Trocou a ignorância do apego aos bens materiais pela sabedoria do "ser". A certa altura, percebeu que sofrimento seria permanecer nas condições de vida privilegiada em que estava anteriormente. Não seria um ato de sabedoria trocar o conforto efêmero do "ter" pela eternidade do "ser" que ele passou a reconhecer?"

livro Quem se atreve a ter certeza.
autores José Pedro Andreeta e Maria de Lourdes Andreeta.
Editora Mercuryo, 2004.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Histórias para contar. Pai Herói

É incrivel ver como em meio a uma multidão, existam verdadeiros homens, esquecidos por nós, mas merecedores de todo respeito e dignidade. Assisti a uma cena rara dentro de uma condução pública, onde um pai, dedicado ao seu filho, mostrava como todos realmente devem educar nossos filhos. O menino ora gritava, ora mostrava sua indignação por estar preso a um cinto de segurança. Eventualmente berrava pedindo um refrigerante ou gesticulava seu desejo de comer um salgado. O pai, procurava acalmar seu filho, conversando com ele com muito respeito, às vezes procurava em uma bolsa que carregava, um doce ou um pacote de biscoito. O pai, a todo instante conversava com o filho, esclarecia a ele não haver necessidade de ser tão rude em desejos. Simplesmente falava com ele, expressando compreender a vontade do menino, mas impossibilitado de satisfazê-lo. E, ao mesmo tempo dialogava com as pessoas ao seu lado. Ouvi trechos da conversa entre eles e fiquei mais admirado com a sua responsabilidade de pai e educador. Tinha o desejo de dar ao filho a melhor educação, e o fazia, desde quando o tivera na maternidade. Parece ser uma história normal, comum e corriqueira. Mas esse menino de 8 anos, é deficiente físico e mental, vivendo em uma cadeira de rodas. O pai, um morador de uma região carente. Pela coragem e amor, é um verdadeiro Pai Herói.