segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Cultura e Desenvolvimento Econômico

Em artigo sobre a relevância dos valores culturais como um dos fatores determinantes para o desenvolvimento econômico, Lawrence Harrison coloca em evidência a inclinação de muitos economistas em acreditar ser a cultura de uma nação fator de sucesso ou fracasso de uma política econômica. Como explicar que em certos países multiculturais onde as oportunidades econômicas e os incentivos estão disponíveis para todos, algumas minorias étnicas se saem melhor do que a maior parte da população. Lawrence cita Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve Bank dos Estados Unidos. "Ele compreendeu de forma correta a importância dos fatores culturais quando declarou, logo após o colapso da economia russa no fim dos anos 1990, eu costumava pensar que o capitalismo era a natureza humana. Mas não é. O capitalismo é cultura."

"Os economistas defensores do valor da cultura para movimentar a economia apresentam exemplos óbivos como o japonês Yoshihara Kunio, escrevendo uma razão que explica o desenvolvimento do Japão é que o país possuía uma cultura adequada. Os japoneses valorizam as realizações materiais; o trabalho duro; a poupança visando o futuro; o investimento em educação; e os valores comunitários. Até mesmo Jeffrey Sachs, um cético em relação às influências culturais, reconhece o peso da cultura."

Segundo o mesmo artigo "o economista italiano Guido Tabellini empreendeu recentemente um estudo do desempenho econômico comparativo nas regiões européias, empregando dados econômicos em relação à confiança, controle sobre o próprio destino e respeito pelos outros. O resultado mostrou que os três fatores estavam positivamente correlacionados ao desenvolvimento econômico, enquanto obediência foi um dos fatores negativamente correlacionado ao desenvolvimento econômico."

Lawrence Harrison descreve no artigo ainda uma pesquisa liderada por ele denominada "A Cultura Importa" apresentando uma abordagem para formular diretrizes para uma mudança cultural progressiva. Suas descobertas revelam algumas caraterísticas chaves que afetam o desempenho econômico, entre as quais destaco:

1. "acreditar na capacidade de interferir no próprio destino mostra uma inclinação ao progresso, enquanto o fatalismo evidencia uma resistência ao progresso";

2. "viver para trabalhar é favorável ao progresso. Já trabalhar para viver é resitir ao progresso";

4. "competição: se for um meio para a excelência, é favorável ao progresso; se for uma ameaça à igualdade, prejudica o progresso";

5. "a cultura favorável ao progresso está aberta à inovação e se adequa a ela rapidamente, enquanto culturas resistentes ao progresso desconfiam de suas inovações e se adequam a elas lentamente".

Incorporar os valores culturais é vital para formulação de políticas econômicas e sociais. É compreender os valores da nação e da sociedade. É dar voz aos verdadeiros anseios do povo.

artigo Culture and Economic Development de Lawrence Harrison.
Washington, dezembro de 2006.
leia o artigo traduzido na página www.ordemlivre.org/node/330.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Fraternidade, igualdade e liberdade

"A fraternidade resume todos os deveres dos homens relativamente uns aos outros; ela significa devotamento, abnegação, torelância, benevolência, indulgência; é a caridade evangélica por excelência e a aplicação da máxima agir para com os outros como gostaríamos que os outros agissem conosco. A contrapartida é o egoísmo. A fraternidade diz cada um por todos e todos por um. O egoísmo diz cada um por si. Sendo essas duas qualidades a negação uma da outra, é tão impossível a um egoísta agir fraternalmente para com os seus semelhantes, quanto o é para um avarento ser generoso. Ora, sendo o egoísmo a praga dominante da sociedade, enquanto ele reinar dominador, o reino da verdadeira fraternidade será impossível; cada um quererá da fraternidade em seu proveito, mas não quererá fazê-lo em proveito dos outros; ou se faz, será depois de estar seguro de que não perderá nada.

Com efeito suponhamos uma sociedade de homens bastante desinteressados, bons e benevolentes para viverem, entre si, fraternalmente, não haveria entre eles nem privilégios, nem direitos excepcionais, sem o que não haveria ali fraternidade. Tratar alguém como irmão, é tratá-lo de igual para igual; é querer-lhe o que desejaria para si mesmo; num povo de irmãos, a igualdade será a conseqüência de seus sentimentos, de sua maneira de agir, e se estabelecerá pela forças das coisas. Mas qual é o inimigo da igualdade? É o orgulho. O orgulho que, por toda parte, quer primar e dominar, que vive de privilégios e de excessões, pode suportar a igualdade social, mas não a fundará jamais e a destruirá na primeira ocasião. Ora, sendo o orgulho, ele também uma das pragas da sociedade, enquanto não for destruído, oporá uma barreira ã verdadeira igualdade.

A liberdade é a filha da fraternidade e da igualdade. Vivendo os homens como imãos, com os direitos iguais, animados de um sentimento de benevolência recíproco, praticarão entre si a justiça, não procurarão nunca se fazerem mal, e não terão, conseqüentemente, nada a temer uns dos outros. A liberdade será sem perigo, porque ninguém pensará em dela abusar em prejuízo de seus semelhantes. Mas como o egoísmo que quer tudo para si, o orgulho que quer sempre dominar, dariam a mão à liberdade que os destronaria? Os inimigos da liberdade são, pois ao mesmo tempo, o egoísmo e o orgulho, como o são da fraternidade e da igualdade.

A liberdade supõe a confiança mútua; ora, não poderia haver confiança entre pessoas movidas pelo sentimento exclusivo da personalidade; não podendo se satisfazer senão às expensas de outrem, sem cessar, estão em guarda uns contra os outros. Sempre com medo de perder o que chamam seus direitos, a dominação é a condição mesma de sua existência, por isso, armarão sempre ciladas à liberdade, e a abafarão tanto tempo quanto puderem.

Todos vós que sonhais com essa idade de ouro para a Humanidade, trabalhai, antes de tudo, na base do edifício, antes de querer coroar-lhe a cumeeira; dai-lhe por base a fraternidade, mas para isso não basta decretá-la e inscrevê-la sobre sua bandeira; é preciso que ela esteja no coração dos homens e não se muda o coração dos homens com decretos. Trabalhai sem descanso para extirpar o vírus do orgulho e do egoísmo, de todos os organismos da sociedade, porque aí está a fonte de todo mal, o obstáculo real ao reino do bem. Só então os homens compreenderão os deveres e os benefícios da fraternidade."

livro Obras Póstumas
autor Allan Kardec
Editora IDE, 2006.